Madeiras Para Instrumentos Musicais

De Madeiras

O SOM DAS ÁRVORES BRASILEIRAS

Pesquisadores descobrem toda a sonoridade e acústicas das florestas nacionais

Madeira. Matéria-prima de inúmeros objetos valiosos para a população mundial é o principal foco do projeto desenvolvido pelo Laboratório de Produtos Florestais - LPF, do Serviço Florestal Brasileiro - SFB, entretanto, o objetivo central desta pesquisa em particular, está ligado a sonoridades e acústica que esse material oriundo das florestas brasileiras pode produzir. Trata-se do projeto “Avaliação de madeiras amazônicas para a utilização em instrumentos musicais”. Com a pesquisa foi comprovado o potencial das árvores nacionais.


O Brasil está entre os principais países que exploram madeiras tropicais no mundo. Entretanto, apenas algumas espécies têm espaço no mercado para a fabricação de instrumentos musicais devido ao tradicionalismo e falta de conhecimento sobre as demais espécies madeireiras. O uso excessivo desse número reduzido de matéria-prima contribuiu para o aumento dos custos de produção e para a utilização não-sustentável dessas espécies. O resultado de toda essa exploração: algumas espécies já são consideradas como ameaçadas de extinção, constando em listas da CITES tendo o seu comércio, quando não proibido, limitado a uma série de restrições. Os motivos expostos têm forçado o mercado a buscar alternativas mais sustentáveis e econômicas de matéria-prima. Isso tem favorecido a pesquisa de espécies substitutas para as atualmente utilizadas na fabricação de instrumentos musicais. No Brasil, estudos desse gênero vêm sendo desenvolvidos pelo LPF, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA e Instituto de Pesquisas Tecnológicas – IPT, desde a década de 80.


Dentro desse cenário, o LPF, reavivou um projeto que busca estudar madeiras da Amazônia para a fabricação dos instrumentos musicais, e a sua promoção dentro do cenário.


Apesar de existir pouca produção de trabalhos científicos nessa área no Brasil, o LPF e o IPT foram pioneiros em classificar as espécies brasileiras para a utilização em instrumentos musicais. Entretanto, os trabalhos desenvolvidos anteriormente estavam restritos a um pequeno universo (menos de 100 espécies) e hoje já são quase 300 espécies estudas somente no LPF, dentre as quais vem sendo desenvolvida a pesquisa de qualificação para instrumentos musicais. Nesses trabalhos as propriedades físicas (massa específicas e contrações), mecânicas (módulos de elasticidade e ruptura) bem como caracteres gerais das madeiras (textura, grã e figura) limitavam o número de espécies estudas. Eram apenas analisadas madeiras com grã regular, textura de média a fina e com baixa contração volumétrica, em função das características das madeiras já utilizadas em instrumentos musicais. A partir desse contexto, novas espécies que estariam fora da classificação inicial foram admitidas e classificadas juntamente com as demais espécies.


O primeiro instrumento estudado foi a gaita diatômica. Foram testados 10 tipos de madeiras, das quais cinco foram aprovadas para a fabricação dos corpos-de-prova. A empresa Hering Harmônicas Catarinense foi a primeira parceira nessa nova etapa, auxiliando na confecção dos corpos-de-prova e na promoção do instrumento em feiras de músicas nacionais e internacionais, como a Musuknesse, a feira de música de Frankfurt. Testados e aprovados por músicos de todo o mundo, a qualidade das gaitas causou grande surpresa.


Em uma segunda etapa, foi avaliada a acústica de 80 tipos de madeiras. Nessa fase, a pesquisa abrangeu todas as propriedades das madeiras que influenciam no timbre final dos instrumentos, como freqüência natural de ressonância, decaimento logarítmico e a velocidade de propagação sonora. As demais propriedades de resistência bem como os caracteres gerais da madeiras, como tipo de grã, textura, cor e trabalhabilidade foram estudadas, com o objetivo disponibilizar informações que auxiliem no processo produtivo dos instrumentos musicais. Uma análise comparativa foi realizada com as principais madeiras que já são empregadas nos instrumentos musicais.


A Amainan Brasil levantou as principais espécies de madeiras utilizadas em todo o mundo no processo de construção de instrumentos musicais. Algumas madeiras nacionais destacam-se como matéria-prima mundial na fabricação de instrumentos musicais devido às suas características. Elas já são utilizadas por muito tempo como é o caso do mogno (Swietenia macrophylla King.), pau-brasil (Caesalpinia echinata Lam.) e jacarandá-da-Bahia (Dalbergia nigra (Vell.) Allemão ex Benth.).


Os resultados obtidos mostram que as espécies nativas amazônicas são potencialmente aptas para a fabricação de instrumentos musicais de qualidade. Entretanto, para uma melhor elucidação dos resultados é necessário à fabricação de instrumentos acabados com diversas combinações possíveis de espécies por partes dos instrumentos, e também testes práticos com músicos e profissionais da área. Dentre as espécies estudas,


O luthier Ronaldo do Carmo, artesão com mais de 15 anos de experiência, produziu violões, guitarras e contrabaixos elétricos utilizando madeiras tropicais. Fazendo uso de algumas combinações de madeiras nos corpos, braços e escalas os resultados são um timbre peculiar para cada instrumento confeccionado. De acordo com o luthier, “a sonoridade das madeiras Amazônicas é excelente, superando as espécies utilizadas tradicionalmente. As madeiras superam em timbre, som e acabamento, sendo reconhecidas por músicos nacionais e internacionais”, afirma. O luthier cita que dentre as várias espécies utilizadas em seus instrumentos as madeiras gombeira (Swartzia leptopetala), o freijó verdadeiro (Cordia goeldiana), a tatajuba (Bagassa guianenses) e o marupá (Simarouba amara) são as madeiras que merecem destaque dentre as demais testadas.


Impulsionada pelos bons resultados apresentados pelas madeiras tropicais e pelo amor a música, a engenheira florestal, Lilia Réis, trabalhou em seu projeto de conclusão de curso, madeiras para a fabricação do oboé. Tradicionalmente produzido a partir do ébano, o oboé é um instrumento de sopro com palheta dupla. Com o projeto realizado pela engenheira, foi possível descobrir que a sonoridade do instrumento projeta o som com duas vezes mais intensidade quando confeccionado com o ipê.


Para o pesquisador e coordenador do estudo Mário Rabelo, a entrada de novas espécies para fabricação de instrumentos musicais influenciará também no uso sustentável de madeiras. O LPF utiliza em seus projetos espécies que integram o plano de manejo do SFB, que determina o que pode ser explorado da madeira em cada território. O estudo com madeiras não conhecidas alcançará um outro ponto fundamental. A pesquisa irá agregar valor à floresta tropical, dando legitimidade aos produtos florestais do país.


Ao longo dos anos, nos quais o projeto vem sendo desenvolvido, fica evidente a comprovação da hipótese inicialmente formulada que na floresta Amazônica, além das espécies tradicionalmente exploradas para a confecção de instrumentos musicais, podem ser encontradas espécies menos conhecidas e de igual ou maior qualidade sonora para este nobre fim. Os levantamentos desenvolvidos por diferentes instituições de pesquisa e iniciativa particular de empresas têm corroborado para que a identificação dessas espécies potencialmente alternativas às atuais.


Uma vez que o problema de identificação do potencial de outras espécies para manufatura de instrumentos musicais é minimizado, fica explícita a necessidade de conscientização do mercado fonográfico da importância de se reduzir a pressão de consumo exercida sobre as espécies tradicionais. Nessa preocupação está refletido o compromisso com uma exploração mais eficiente de hectares de florestas com maior aproveitamento madeireiro e conseqüente promoção do desenvolvimento sustentável.


Outro problema enfrentado ao identificar as espécies alternativas é a disponibilidade dessas madeiras no mercado. Muitas empresas não investem nas alternativas por falta de volume suficiente para atender à sua produção. Existe uma necessidade de se investir em programas de conscientização de serrarias para que possam atender à procura pelas madeiras.


Quando a madeira se encontra disponível, em geral, não pode atender à demanda, tanto pela quantidade disponibilizada quanto pelo corte que é realizado na tora. As pranchas disponíveis em sua maioria foram cortadas no sentido tangencial enquanto que a indústria de instrumentos musicais prefere trabalhar com cortes radiais.


Muito mais do que só identificar as espécies alternativas às atualmente utilizadas é importante buscar maneiras de se agregar valor ao produto final. Isso pode ser alcançado a partir de programas de apoio técnico a serrarias, orientando-as quanto às necessidades da indústria fonográfica brasileira com relação ao corte da madeira, assim como apoio técnico nas atividades de secagem. Esses seriam os primeiros passos para se atingir o desenvolvimento sustentável tão almejado pelas políticas econômicas mundiais.

Preparam esse texto:

Mário Rabelo de Souza (mario.souza@florestal.gov.br) - Analista Ambiental, Serviço Florestal Brasileiro - Coordenador do Projeto

Ricardo Teles (rfteles@gmail.com) – Engenheiro Florestal, Fundação de Tecnologia Florestal e Geoprocessamento

Priscilla França (dedafranca@gmail.com) – Jornalista

Também participaram do Projeto:

Maria Helena de Souza, Engenheira Florestal /Analista Ambiental, Serviço Florestal Brasileiro maria-helena.souza@florestal.gov.br

José Arlete Camargos, Analista Administrativo, Administrador, M.Sc., Anatomia e Morfologia da Madeira – LPF

Brasília, 25 de fevereiro de 2008 – Instrumentos musicais
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